NutriçãoCom. Biografia: Comida e Gente
Pra chegar no hoje, como tudo na vida, teve primeiramente um ontem.
Esse meu começo chama-se comer. A comida que nutre, que celebra, que emociona... A comida de domingo na casa da vó, da festa da madrinha, com os primos na casa da tia, da correria do dia a dia ...
Comida.
Recordo o cardápio de todo domingo: arroz branco, maionese (legumes e ovos), frango inteiro assado e macarrão molho vermelho. Tudo feito pela "dona da casa", mãe de três, residente do bairro italiano mais antigo, o Brás, em São Paulo e que, de nada tinha de imigrante europeia e sim, de nordestina.
imagem: canva, 2025.Neste mesmo domingo, a "dona da casa" antes de fazer o almoço tinha um primeiro compromisso: a feira livre. Barulhenta, colorida, eram 3 quarteirões de barracas que começava com a de pastel dos mais diversos sabores com caldo de cana e terminava com a barraca de frangos, peixes e fígado crus e outras mais barracas de pastéis. No caminho, encontrava-se um mundo de limões, ovos, alfaces, abobrinhas, batatas, laranjas, utensílio de cozinha, farináceos, produtos de limpeza, chás e ervas, consertos de panelas, bananas, discos de vinil, ... um mundo de cores, formas, cheiros e gente.
Esse mundo é vívido na minha mente e talvez tenha se projetado meu interesse pela comida porque, antes de estudar sobre nutrição, eu vivi a comida. Essa comida que nutre a alma de recordações, os prazeres à mesa, as comemorações, os desafios da vida ... esse tudo de vida. Hoje, minha casa precisa ter cheiro (de comida), formas e cores (memórias) e gente (são 3 filhos também). Remete meu inconsciente da casa, comida e da feira de domingo lá no Brás.
E antes de chegar na nutrição, eu também passeei pelo social.
Morar em um bairro comercial porque, praticamente nasci lá no meio das caixas e araras, ele já era um mundaréu de gente e lojas e muitas barracas. Isso talvez tenha me deixado carente de ter gente sempre por perto. Gostava do barulho que toda aquela gente causava. Das conversas, das piadas, dos cumprimentos, dos carros, dos carrinhos de mão com mercadorias, das sacoleiras e seus ônibus, do trânsito ... conhecia cada esquina, cada rua, cada loja. A vida pulsava naquele comércio. Os colegas e família de longe que nos visitavam sempre pediam conselhos de onde ir para adquiri algo específico que fosse " mais barato" ali no Brás.
E a casa da "dona da casa" era sempre aberta. Ela recebia a todos sempre com café, um almoço, uma quarto para dormir... sempre rodeada de gente. Quase nunca estávamos sozinhos.
Gente.
Talvez essa memória me levou a minha primeira graduação. Eu queria cuidar de muita gente. O sonho era a ciência mas me contentei com o serviço pelo social. Apesar de nunca ter exercido na sua totalidade, sempre me vi ali rodeava de pessoas e suas complexidades. Era o Brás dentro de mim.
imagens: canva, 2025
Mas algo sempre me incomodou nesta história. Ela, a "dona da casa", não gostava de cozinhar. Certos traumas nascem ou se desenvolvem por certos motivos mas ela sempre cozinhava. Comida fresca sempre teve dentro de casa. Com sorriso e carisma por onde fosse e é assim até hoje.
Por muito tempo me perguntei de onde veio meu encanto pela cozinha e cozinhar e estar rodeada de gente. Não achava que era algo adquirido por memórias saudáveis da infância. Hoje vejo que estava errada. Estava tudo dentro de mim em ebulição.
Memórias e o que somos hoje.




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